História da Bourgogne

História

– Provavelmente a Vitis vinífera subesp sylvestris (selvagem) sobreviveu a última era glacial nos cantões dos Alpes Ocidentais (vales do Jura e Suiça).

– Introdução da Vitis vinífera subesp vinífera (domesticada) na Gália pelos gregos de Phocée no final do século VII a.C

– Introdução da comercialização do vinho na Gália pelos etruscos a partir de Massalia (Marselha, cidade mais antiga da França) por volta de 600 a.C.

– Desenvolvimento de vinhedos no vale do rio Ródano pelos gregos Fócios.

– Conquista romana da Galia Narbonensis no final do século II a.C

– Desenvolvimento de vinhedos pelos romanos no vale do rio Ródano

– Desenvolvimento de vinhedos no vale do rio Saône no século II e I a.C pelos gauleses Éduos (Haedui) na região de Beaune a Mâcon e pelos Lingons (Lingones) na região de Dijon, Hautes Côtes de Beaune e Chablis; os quais eram aliados dos romanos.

– Os romanos conhecem o barril de carvalho (produzidos pelos gauleses); mais adequado ao transporte do vinho que as ânforas de argilas.

– Em 125 a.C o avanço romano pelo corredor do rio Ródano rumo ao norte e a oeste em direção ao Languedoc, fez prosperar a disseminação da videira e o comercio do vinho na Gália.

– Em 52 a.C Júlio César conquista toda a Gália e os gauleses vão aos poucos fundindo sua cultura com a cultura romana, formando a cultura galo-romana.

– Vestígios de vinhedo encontrado no lieu-dit Au-Dessus de Bergis, em Gevrey Chambertin, comprova a pratica de vinicultura galo-romano no século I d.C na Bourgogne.

– O desenvolvimento e prosperidade da vitivinicultura na região galo-romana, principalmente em Narbonne, ameaçavam os interesses comerciais do império romano, aonde o édito do imperador Domiciano, no ano de 92, proibiu a plantação de novas videiras fora da Itália, e o arranque de 50% das vinhas, deixando só o suficiente para o consumo local.

– Em 280 d.C o imperador Probus anula a proibição e a vitivinicultura volta a se desenvolver na Bourgogne.

– Com a desagregação do império romano, culminada com as invasões dos bárbaros germânicos (entre eles os Burgundios), em 476 tem o fim do império romano ocidental.

– Com o fim do império romano, os Burgundios, que já tinham se instalados na Sapaudia (Saboia), aumentaram seus domínios no reinado de Gundebaldo (473-516), estendendo o reino da Burgundia de Landres à Marselha e até o reino de Loire.

– Em 532 os Burgundios são derrotados pelos francos na batalha de Autum e em 534 a Burgundia é incorporada ao reino franco.

– Tem início o reino da Burgundia Merovíngios, que se estende até 751, com a coroação de Pepino o Breve, e o início da era dos soberanos carolíngios.

– Neste período coube a igreja manter a cultura da vinha e do vinho para os seus ritos eucarísticos, e também difundir a sua comercialização. A vinha então se espalhou regularmente por toda a Europa, ajudada nisso pela extensão das ordens monásticas.

– Os monastérios recebem terras de reis e nobres, e um dos primeiros registros de doação de vinhedos é em 581, aonde Gontran, rei dos burgúndios, doa seus vinhedos de Dijon para o monastério beneditino de Saint-Seine.

– Com a morte de Pepino, o Breve e, 768, seu filho Carlos Magno é proclamado rei dos francos, e expande o território, que no seu auge ia dos Perineus e norte da Península Ibérica, a França, Alemanha, Austria, norte da Itália e parte da Croácia.

– Carlos Magno expandiu o cristianismo convertendo forçosamente os pagãos saxões em cristão, e para otimizar o processo fundou diversas dioceses nos territórios ocupados, e com isto levando disseminação da vitivinicultura na região.

– Por volta de 775 Bento de Aniane ingressa no monastério beneditino de Saint-Seine em Dijon, para cuidar da adega e em seguida é eleito abade; retorna para as propriedades de seu pai no Languedoc, aonde em 780 funda uma comunidade monástica em Aniane, e com o não desenvolvimento dela, funda em 782 no mesmo local um mosteiro baseado nas regras beneditinas (Ora et Labora).

Com o sucesso e influencia, funda e reforma vários outros mosteiros, tornando-se o abade efetivo de todo o império de Carlos Magno.

– Com a morte de Carlos Magno em 814, seu filho Luis, o Piedoso torna-se imperador, e confia a Bento de Aniane a coordenação das práticas e a comunicação entre todos os mosteiros dentro de seus domínios; e dentro destes se supõe as práticas vitivinícolas.

– Em 817 Bento de Aniane era o chefe de um conselho de abades, em Aachen, que originou um código de regulamentos, ou “Codex regularum”, e que seria obrigatório para todos os mosteiros.

– Com a morte de Luis, o Pio em 840, os carolingios resolveram partilhar a herança, e no tratado de Verdun de 843, o império é dividido em 3, pondo fim a 4 séculos de unidade franca:

  1. Francos centrais governados por Lotario I, e que englobava a Lotaríngia, Bourgogne e Itália
  2. Francos orientais governados por Luis, o Germano, que formou mais tarde o Sacro Império Romano-Germânico, e posteriormente a Alemanha.
  3. Francos ocidentais governados por Carlos, o Calvo, que formou a fundação da França.

– Em 855 com a morte de Lotario I, o reino franco central é dividido entre seus filhos:

  1. Luis II recebeu a coroa imperial e a Itália
  2. Carlos da Provence torna-se Rei da Provence (Baixa Bourgogne e Provence)
  3. Lothair II recebe a Austrasia, Frisia e Alta Bourgogne

– Em 863 Carlos da Provence morre de epilepsia, e sem herdeiros sua herança é dividida entre seus irmãos, aonde Lothair recebe apenas as partes ocidentais da Baixa Borgonha (bispados de Lyon, Vienne, Vivarais e Uzès ), enquanto Luís II recebeu todo o resto do Reino da Provença .

– Com a morte de Lothair II em 869, e sem filhos legítimos, seus tios Luis, o Germano e Carlos, o Calvo dividiram a herança, firmando em 870 o Tratado de Meerssen.

– Com a morte de Luis, o Germano em 876 e de Carlos, o Calvo em 877, e as disputas de sucessão, finalmente em 880, no tratado de Ribemont, é firmado o ultimo tratado de partição do império franco.

– Em 880 tem início o Ducado da Bourgogne, que foi um dos estados independentes mais importantes da Europa medieval, e apesar de serem vassalos do rei da França, foram praticamente independentes até o seu final em 1483.

É um período turbulento, mas nos mosteiros os monges continuavam aprimorando seus conhecimentos de vinicultura e viticultura através de gerações.

– Em 909 foi fundado na localidade de Cluny, na Bourgogne francesa, o mosteiro que tinha como objetivo recuperar a independência e o espirito beneditino, e muito outros mosteiros se confederaram a ele; com o recebimento de muitas doações, entre as quais vinhedos em Mâconnais e na Côte Chalonnaise. Tornou-se rico e esplendoroso, ostentando a maior igreja do ocidente, e por quase dois séculos exerceu influência espiritual, política, econômica, intelectual e artística por toda a Europa.

– Em 1098, a dissidência motivada pelo distanciamento das regras beneditinas, levou os abades Roberto de Molesme, Alberico e Estevão Harding a fundar o mosteiro novo em Citeaux (Abadia de Citeaux), que deu origem a ordem dos monges cistercienses.

– Em 1113, Bernard de Clairvaux, junto com outros 30 jovens nobres são admitidos na Ordem de Cister; foi tamanha a aceitação da reforma cisterciense que, em 1153, já havia 350 mosteiros seguindo sua interpretação da Regra Beneditina.

– A Abadia de Citeaux recebeu doações de vinhedos em na Côte de D’Or, Côte Chalonnais e Chablis.

– Os monges beneditinos de Cluny e Citeaux aprimoraram seus conhecimentos de viticultura e vinicultura, culminando no século XII o apogeu da influência monástica na região.

Os monges cistercienses já tinham identificados algumas das melhores parcelas de seus vinhedos, as quais cercaram com muros, dando origem aos Clos, sendo o primeiro deles o Clos de Vougeot em 1115 e o Clos de Tart em 1140; surge também o conceito de Cru, vinhedos de excepcional qualidade e o com isto o conceito de Terroir.

– Em 1232 a duquesa de Bourgogne Alix de Vergy doa o seu melhor vinhedo Le Cloux (Clos) des cinqs journals (jornal- área de 0,34 hectares) para a Abadia de Saint-Vivant, portanto um vinhedo de aproximadamente 1,7 hectares, que daria origem ao vinhedo de Romanée-Conti.

– Em 1309 a sede papal é deslocada de Roma para Avignon, pelo Papa Clement V, e se então o vinho branco era o preferido do clero, passou-se a incrementar o plantio de uvas tintas e a produção de vinhos tintos.

No Clos de Vougeot, os monges subdividiram os vinhedos de Pinot Noir em três parcelas, e vinificando-as em separado, aonde as uvas da melhor parcela dava origem a Cuvée do Papa, a parcela intemediária dava origem a Cuvée do Rei e a parcela mais abaixo dava origem a Cuvée dos Monges.

– A dinastia Capetiana (987-1328) e em seguida a dinastia de Valois (1328- 1589) vai exercer forte influência na região, aonde os duques da Bourgogne chegam a ocupar regência sob o reinado de Carlos VI, o Louco (1380-1422), mantendo posição de autonomia e uma política própria, além de posição de suseranos em relação a diversos condados e senhorios.

Com isto o vinho da Bourgogne, preferido dos duques, conquista a sociedade civil e política, sendo também o preferido da nobreza e burguesia dos países baixos e assim disseminando por toda a Europa; o comercio de vinhos da Bourgogne se expande e se vê necessário estabelecer regras para garantir um mínimo de qualidade do mesmo.

– Em 1395, o duque Felipe II da Bourgogne (Felipe, o Bravo), decide implantar medidas para melhorar o vinho borgonhês, priorizando a uva Pinot Noir e proibindo a uva Gamay em seus domínios (que ia até Mâcon); estas medidas são consideradas a primeira política vitivinícola da história e determinou a fronteira da viticultura entre Bourgogne (Pinot Noir) e Beaujolais (Gamay).

– Em 1443 é criado o Hôtel-Dieu (Hospices de Beaune) na cidade de Beaune, um hospital assistencialista para atender aos pobres; que tendo recebido muitas doações de vinhedos, torna-se um notável produtor de vinhos.

– No século XVII os vinhos de Bourgogne tem grande reputação, sendo apreciado pelo rei Luis XIV, por indicação de seu médico Guy-Crescent Fagon, originário de Nuits-Saint-Georges.

– Com o declínio dos monastérios, a nobreza começa a investir em vinhedos da região,

– Em 1631 a família Croonemburg adquire da Abadia de Saint Vivant parte dos vinhedo Le Clos des cinqs Journals e o renomeia La Romanée.

– No início do século XVIII, o comercio de vinho se intensifica e os primeiros comerciantes começam a se instalar em Beaune.

– Em 1720 instala-se em Beaune a Maison Champy, a primeira casa de negócios de vinhos da Bourgogne.

– Em 1760 André de Croonemburg vende La Romanée para Louis-Franços de Bourbon, príncipe de Conti, que acrescenta seu nome, dando origem ao vinhedo de Romanée-Conti, uma parcela de 1,8 hectares. Neste mesmo ano um mapa do vinhedo de Romanée- Conti mostra na sua divisa, seis parcelas de vinhedos, que se tornaram La Romanée.

– Em 1789 tudo muda com a Revolução Francesa, aonde as terras da nobreza e do clero são confiscadas para o patrimônio nacional.

– Em 1791 foi promulgada a nova constituição francesa, assegurando cidadania e igualdade a todos perante a lei, o voto censitário, a confiscação das terras eclesiásticas, o fim do dízimo, a constituição civil do clero, dentre outros pontos.

– Em 1791 o Ducado da Bourgogne é dividido em 04 departamentos: Cote-d’Or, Saone-et-Loire, Yonne e Ain.

– Muito dos vinhedos foram comprados pelos comerciantes, em pequenas parcelas definidas pelos seus climats, mas mantendo o nome de seus antigos proprietários ou do seu Lieu-dit.

– Em 1791 Nicolas Joseph Marey adquiriu as três seções principais do que veria a ser o Romanée Saint-Vivant: os jornais Le Cloux des Neuf Journaux e Le Cloux des Quatre e Le Cloux de Moytant – no total 18 jornais equivalentes a 6,17 ha. Com a incorporação do vinhedo Vigne à Estienne Bôgnet, completa os 9,24 hectares.

– Em 1800 tem início o período napoleônico, que durou até 1815 e que mudou o cenário mundial.

– Em 1804 entre em vigor o Código Civil Napoleônico, que dentre outras normas acabava com a transmissão das terras pelo princípio da primogenitura, aonde agora os filhos agora tinham direitos iguais à herança paterna e o casamento somente adquiria legitimidade em frente a um juiz de paz.

Todas estas medidas contribuíram para a fragmentação dos vinhedos da bourgogne, e com isto a diversidade que hoje em dia conhecemos como o Mosaico Borgonhês.

– Na metade do século XIX os vinhedos da Bourgogne foram atacados por uma série de pragas, primeiro a broca, depois o oídio e o míldio e no final do século pela filoxera, fazendo com que as centenárias videiras em pé franco fossem arrancadas e substituídas por mudas enxertadas em porta enxertos de videiras americanas.

– No século XX a eclosão da primeira guerra mundial, os impactos foram profundos na região e com a crise muitos proprietários venderam suas terras para as vinícolas mais estruturadas, os chamados domaines.

– Em 1923 é criada a primeira Cave Cooperativa da Borgonha, a la Chablisienne, em Chablis.

– Em 1930, para combater as inúmeras fraudes, proprietários de vinhedos na Côte d”Or decidem vender seus vinhos diretamente aos negociantes, e para isso formam um consorcio de oito produtores, presidido pelo marques de Angerville, proprietário em Volnay, para que engarrafassem seus próprios vinhos, iniciando assim a venda direta, através de um depósito em Nuits-Saint-Georges.

– Em 1934 os produtores Georges Faiveley e Camile Rodier criam a Confraria dos Cavaleiros de Tastevin.

– Em 1936 é criada as AOC francesas (Appellation d’origine contrôlée), sendo a AOC Morey-Saint-Denis a primeira da Bourgogne.

– Em 1943 foi criada a denominação Premier Cru

– Em 1945 a Confraria do Tastevin se muda para o Château du Clos Vougeot, que fora construído pelos monges cistercienses no século XII e onde ficavam a antida adega e vinícola da Ordem de Citeaux.

– Na segunda metade do século XX foi o período do uso de maquinas agrícolas em substituição do cavalo, uso de agrotóxicos, extensão e aquisição de vinhedos, aonde os vinhedos chegaram a 34 mil hectares distribuídos nas 100 AOC da Bourgogne.

– No século XXI o desenvolvimento e o aprimoramento de Bourgogne continuam, como também a procura de seus vinhos, e isto se reflete numa valorização grande nos preços de seus vinhos.

Exportação de 2018

– Nos dias atuais há uma nova compreensão de suas AOCs, aonde se considera que se tem somente 84 AOCs, as quais foram adicionadas as Denominações Geográficas Complementares, aonde veremos com mais detalhes na AOC Bourgogne.

Fonte- Vinhos da Borgonha, história, tradição e cultura- Jean Claude Cara/Ligia Maria Salomão Cara

Fonte- https://www.vins-bourgogne.fr/

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